A Quarta Parte do Mundo – II


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Por que a “América” se chama “América” e a porção Sul desse grande continente, onde está o Brasil, chama-se América Latina?

Hispânico é um termo que pode ser considerado em dois contextos diferentes, o cultural (ou étnico) e o geopolítico. Etnicamente, hispânico é um label[1] ou rótulo estatístico (com viés discriminatório) há tempos utilizado pelo censo norte-americano para definir uma massa migratória de estrangeiros do próprio continente americano, tais como mexicanos, hondurenhos etc.

Antes desse uso estatístico mais recente, hispânico (espanhol) é uma palavra usada pelos antigos romanos que designava, genericamente, os habitantes de uma região europeia que hoje corresponde a Portugal e Espanha.

Em princípio do século XX, na Europa e nos Estados Unidos, referia-se à parte do continente não-ocupada por norte-americanos e canadenses como sendo América Hispânica ou América Espanhola.

Afora o preconceito étnico em torno de hispânico, havia uma outra questão. O Brasil, que é um gigante, é um país onde se constatava uma grande diáspora de Portugal que, nada obstante ibérico como a Espanha, em termos geográficos, não se confunde com a Espanha e – pode-se se dizer com certeza – é culturalmente bem diferente.

Latim é, originalmente, não apenas uma língua, um idioma usado pelos romanos, mas um marco do imperialismo romano. BROOKE nos dá conta[2] de que “entre os anos 100 antes de Cristo e 400 depois de Cristo, estima-se que o número de línguas faladas nos territórios sob administração romana caiu de 60 para apenas 12, com o Latim assumindo não só como a língua franca, mas também substituindo, em muitos casos, inteiramente a língua nativa (…) e o Latim sobreviveu muito tempo depois que o Império Romano era mera memória: O uso ativo do Latim durou três vezes mais tempo que o domínio Romano”. No final de 1889, portanto, há pouco mais de cem anos, considera-se a adoção do Latim como um idioma internacional![3]

Feitas essas considerações, por que, então, “América Latina”? Seria porque as nações na América do Sul, nomeadamente, o Brasil tem alguma ligação mais específica com os Romanos e sua língua, o Latim?

Não. A escolha do Latim para SUBSTITUTIR o termo “hispânico” ou “espanhol” para designar o conjunto de países da América do Sul se explica pelo fato de que latim corresponde a uma área historicamente mais abrangente do hispânico, compreendendo não só os países de Portugal e Espanha, como também outros, a saber, o Francês e o Italiano também!

Aquela substituição desagradou espanhóis. A propósito, contundentemente contra a substituição de América Espanhola por América Latina, escreveu AURELIO ESPINOSA em 1918:

“Ao longo de quatro séculos, vai da descoberta do novo mundo até o fim do século XIX, nenhum escritor, historiador ou filólogo de importância usou os termos América Latina. O francês usou por quatro séculos o termo América Espanhola, o inglês, e norte-americanos usaram América Espanhola, os italianos América Espanhola etc. O termo América Latina, portanto, é um termo novo, um intruso, que deve provar o seu direito de ser usado. A maneira pela qual tem sido adotado por alguns distintos escritores de nossos dias é surpreendente. O novo nome não é apenas vago, sem sentido e injusto, mas o que é pior, é não-científico”.

Nada disso. Como o próprio detrator reconhece, substituir-se América Espanhola por América Latina se deu pela presença gigantesca do Brasil, que é de origem portuguesa com certeza, e não espanhola; por mais que se queira atribuir ao termo hispânico sua versão geográfica maior, o seu componente cultural é restrito à nação espanhola, o que é conflitante com a cultura lusitana!

Compreensivelmente, os espanhóis tentaram se justificar contra aquela alteração (são palavras do Hispanista, J. C. Cebrian, expressas em uma letra impressa em “Las Novedades”, em Nova Iorque, em 2 de Março de 1919): 

De fato, tentar inculcar que a América do Sul é uma América Espanhola e Hispânica (sendo esse o gênero que abrange o Português) é de fazer rir o sério Marques de Pombal.

Assim, a América onde está o gigante Brasil, maior país da região, não poderia ser uma América Espanhola, nem seria justo, em atenção aos países que orbitam em torno do Brasil, estes sim de origem não-Portuguesa, infelizmente para eles, ser uma América Portuguesa. Por isso, o termo Latina – para designar uma região europeia maior e culturalmente mais abrangente – mostrou-se o mais apropriado e aquele que se tornou definitivo!

Dessa maneira, de um lado, afasta-se o sonho Espanhol de que o Brasil é hispânico e, ao mesmo tempo, faz-se justiça aos demais países, que são hispânicos, sem usurpar que o maior país da América do Sul tem Portugal como sua pátria-mãe.


[1] Gimenez, Martha E. “LATINO/”HISPANIC”-WHO NEEDS A NAME? THE CASE AGAINST A STANDARDIZED TERMINOLOGY.” International Journal of Health Services, vol. 19, no. 3, 1989, pp. 557–71. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/45131017. Accessed 24 Mar. 2025.

[2] ALLEN, BROOKE. “The Life and Times of Latin.” The Hudson Review, vol. 61, no. 4, 2009, pp. 787–92. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/25650692. Accessed 24 Mar. 2025.

[3] Oldfather, W. A. “Latin as an International Language.” The Classical Journal, vol. 16, no. 4, 1921, pp. 195–206. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/3287690. Accessed 24 Mar. 2025.

 

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